Antes de começar

Atualizado: 15 de Abr de 2019


Desde criança curtia qualquer manifestação artística. Lembro de sentar na frente do toca discos do meu pai e ficar ouvindo músicas e vendo os livros de fotografia e arte que ele tinha. Lembro de acompanhar o trabalho da minha mãe como contadora de histórias nas escolas que ela trabalhava. Essa influência dos meus pais me fez procurar a fotografia como tentativa de manter um registro diário de coisas cotidianas. A fotografia me fez aprender a enxergar, a fazer recortes daquilo que via, a compor a realidade da minha vida. Aprendi, de certo modo, a me conhecer por meio dela. Quando fotografamos, estamos meditando: é a concentração na ação do presente, é quando usamos nossa intuição para organizar formas e fatos sociais. Em 2013, fui convidado por outro projeto social, o Shopping de Sonhos, para cobrir as ações que realizava nas comunidades carentes da Grande Florianópolis. Precisamos sentir o cheiro, ver os olhares, ouvir as histórias para saber o que é privação de liberdade. Liberdade no sentido amplo. De comer, ter acesso à saúde, brincar com segurança, acesso ao trabalho rentável, à educação eficaz. Essa experiência sensorial foi o estímulo para começar a desenvolver meus projetos.

A partir daí comecei a publicar as fotos que fazia nas redes sociais na tentativa de forçar nosso olhar para outras realidades. Voltar nosso olhar para as “cidades invisíveis”. As cidades que não enxergamos ou que temos dificuldade para crer que existam tão perto da gente. Mas era pouco, não bastava testemunhar a pobreza. Queria fazer mais. Fiz contato com um amigo artista de Florianópolis, o Danka Umbert, para pedir que fizesse uma releitura de uma fotografia que havia feito. Era a de um menino, envergonhado, me olhando à espreita por uma cerca. A ideia era simples: estampar em camisetas a arte e comercializar para arrecadar dinheiro e ajudar a família daquela criança – consegui comprar colchão, cestas básicas e roupas para eles. Não tinha planejamento, não havia ideia do alcance que o projeto está tomando. Queria apenas produzir uma camiseta com o objetivo de ajudar aquela família.

Hoje temos muitas artes estampadas e todas as nossas ações buscam impacto social. Desenvolvemos ações na área da saúde, cultura e meio ambiente. É a partir de parcerias que vamos conseguindo concretizar nossas ideias, que vão amadurecendo a partir dos problemas que enxergamos nas comunidades. A solução para os problemas está lá dentro.

Não pretendo transformar o projeto em ONG. Já registrei a marca, e estou empolgado com a ideia do empreendedorismo social. Acredito que os problemas sociais possam ser resolvidos por negócios sociais como o Cidades Invisíveis. Ele tem que ser autossustentável, ter planejamento e metas de uma empresa, mas com outra finalidade: a preocupação não é na maximização de lucros, e sim na transformação social. O projeto tem que ser o melhor para o mundo. Pé por pé, passo por passo, vamos construindo nossa história junto com as comunidades.

O desafio do Cidades Invisíveis é conseguir ser um dilatador das potencialidades das pessoas que passam por privações. Como diz o economista Muhammad Yunus, a pessoa pobre é como um bonsai. Podemos plantar a semente da árvore mais alta, mas se for colocada num pequeno vaso, ela nunca conseguirá crescer. Não há nada de errado com a semente, e sim em como ela está sendo cultivada.


Cada pessoa tem uma potencialidade a ser descoberta, habilidades e competências que poderiam colaborar com nossa sociedade. E acredito que devemos ajudar essas pessoas a se descobrirem, a ajudá-las neste caminho de expansão. Basta colocar uma solidez nos seus passos, e essa descoberta irá acontecer. Todos somos empreendedores. Todos somos capazes de produzir algo bom.

Esse desafio enxergo todos os dias no horizonte, é o que me estimula a continuar diante dos problemas de dar conta de todas as atividades do projeto. Gostaria de ter apoio de empresas privadas para investir no Cidades Invisíveis e compartilhar destes mesmos valores. Por enquanto, invisto aquilo que me sobra durante o mês. Faço os investimentos a partir das minhas economias que consigo tirar do meu trabalho. Seria mais fácil ter este tipo de ajuda. Quem sabe um dia. Sem pressa, importante é não perder a essência do projeto. O nosso DNA.

Quando fotografo uma mulher, uma criança, um idoso, um homem, é um momento de compartilhamento de quem somos, da nossa humanidade. É quando eles permitem que eu compreenda sua dignidade. Mas este ato, como a fotografia, exige silêncio. Preciso ser invisível para que não sintam que estou invadindo um espaço não permitido. Ás vezes, para fotografar, temos que esperar que o conforto do espaço retorne. Como jogar uma pedra na água. Basta ter paciência para que parem as pequenas ondas. Neste processo, me envolvo em suas histórias, em seus dramas pessoais, compartilho suas dores e alegrias – “uma alegria compartilhada se transforma em dupla alegria, uma dor compartilhar em meia dor”. Aos poucos elos de intimidade e confiança se constroem e consigo receber o respeito das famílias. Acabamos nos tornando amigos, numa relação de boas trocas. Muitos me ligam para saber como estou ou me mandar mensagens de carinho. Como toda relação, deve ter respeito e afeto.

A moda parece que entrou na vida de todos: está nas novelas, nos carros, nos aparelhos celulares, nos objetos que usamos. E cada vez mais estamos conscientes das coisas que usamos. Queremos saber os valores que a marca representa, tudo aquilo que nela está agregado. Neste processo de democratização da moda, é que penso que surge o seu fator de transformação social. Se antes, durante a idade média, era a nobreza e, logo após a burguesia, que a detinha, hoje todos a consomem. E podemos pensar no retorno da valorização dos artesãos. No valor do trabalho das costureiras, dos serigrafistas, dos designers, dos estilistas. Devemos supervalorizar o trabalho humano. Saber todo o processo atrás de um objeto, de uma camiseta. Há alguns projetos no mundo que estão neste caminho. O “know who made it” parece ser a transformação que precisamos. É consumir moda de forma consciente. Numa produção que fizemos, a parceria foi com uma malharia social, dentro do presídio feminino de Florianópolis. As presas receberam um curso de capacitação e passaram a costurar dentro deste projeto. Era um caminho alternativo ao que estavam acostumadas: quase todas haviam sido presas por tráfico de drogas. Tempo verbal no passado, pois a Administração Pública não achou mais conveniente mantê-lo.

Esse é o nosso futuro. Mais uma vez, é o que consigo enxergar no horizonte. É o que me faz levantar da cadeira e continuar a caminhar.


Samuel Schmidt


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